Sunday, 20 February 2005

"Todos são estranhos como eu"

Histórias da vida cotidiana
Paul Auster fala sobre livro que organizou com relatos verdadeiros de não-escritores dos EUA

Cassiano Elek Machado

Paul Auster é um sujeito que cata a poesia que entornam no chão. Seus nove romances e o outro punhado de livros que publicou sempre nascem das histórias fortuitas que apanha nas ruas ao acaso. Não por acaso, é ele, o acaso, um tema central em sua obra.
Em 1999, este colecionador de imprevistos particulares resolveu mergulhar no fortuito das vidas alheias. Atendendo a convite da NPR, a rádio pública norte-americana, organizou um programa mensal no qual convocava ouvintes de todos os estados americanos a enviarem relatos de histórias que haviam vivenciado.
O escritor norte-americano de 58 anos viu-se rapidamente às voltas com uma avalanche (chega de "tsunamis", por favor) de relatos de todas as espécies.
Todos os dias, por volta do meio-dia, pegava um ramalhete de histórias em uma caixa postal alugada para o projeto e fazia dos relatos seus companheiros de almoço. Almoçou durante quase dois anos com mais de 5.000 estranhos, de todas as profissões, Estados e idades.
No seu escritório, ele conta que organizou três cestas, com as inscrições "definitivamente boas", "quem sabe" e "não". "A cesta do "não" era a que transbordava?", questiona a Folha. "Ah sim, eu tenho de admitir que a maioria não prestava. Mas ainda assim havia uma quantidade de "definitivamente boas" que fazia a história toda valer a pena", conta a voz de crooner do escritor, por telefone, de sua casa, no Brooklyn (NY).
Estas "definitivamente boas" foram pelo mesmo vozeirão lidas nas rádios americanas e depois agrupadas em um livro. "Achei que Meu Pai Fosse Deus", título de uma das histórias que recebeu, é o nome deste volume, que a Companhia das Letras lança na próxima semana no Brasil.
Divididos em dez compartimentos, como "animais", "objetos", "guerra" ou "sonhos", os relatos compilados por ele, quase todos em linguagem bem pouco literária, vão do zen ao bizarro, do épico ao comezinho. Vê-se a mão do escritor neles. Auster um dia, depois outro dia, catando a poesia que entornam no chão.
 
Folha - Este projeto deve ter lhe ajudado a entender como pessoas que não são escritoras contam uma história. Que elementos você encontrou em comum entre esses amadores e quais os problemas mais freqüentes que eles demonstraram para se expressarem?
Paul Auster - É interessante que de modo geral as pessoas reunidas no livro podem não produzir alta literatura, mas fazem histórias muito funcionais. O que descobri com as milhares de histórias que li é como separar as ruins das boas. As ruins parecem ter sido escritas por pessoas muito preocupadas consigo mesmas, pessoas que alardeavam muito coisas como "meu avô era o melhor avô que já existiu". É algo irritante. Já as boas histórias eram feitas para as outras pessoas. Partiam do pressuposto "eu sou um ser humano, você que vai ler isso é outro ser humano, deixe-me contar algo que aconteceu comigo e que pode te interessar; quem sabe não aprendemos algo sobre a vida e a humanidade se fizermos isso".

Autor afirma que relatos mostram que não há pessoas comuns e servem de protesto contra cultura besta dos EUA

Folha - Se fosse usar esta experiência como base para um curso de narrativa ou para um livro que ensinasse a escrever, quais lições seriam as mais importantes?
Paul Auster - Seria instrutivo recomendar que o escritor abraçasse com firmeza seu assunto, sem muitas digressões. Se você tem algo para contar, é interessante que o faça da maneira mais econômica e graciosa possível. Muitas vezes, quando a pessoa vai escrever sobre ela mesma, acaba perambulando a esmo, sem saber o que dizer. O que distingue este grupo que reuni é que eles sabiam. Tinham uma história para contar e perceberam que o conteúdo era mais importante do que a forma como contavam. E isso serve para toda a boa escrita.

Folha - Alguns temas caros à sua ficção, como a força do acaso, aparecem muito nas histórias. Os leitores de Paul Auster vão achar a mão de Paul Auster no livro, não?
Auster - Não tenho dúvidas. Se fosse qualquer outro escritor que selecionasse as histórias, faria um livro totalmente diferente.

Folha - E o que o levou a fazê-lo?
Auster - Foi uma espécie de experimento filosófico. Queria descobrir se as outras pessoas experimentavam a vida de modo tão estranho quanto eu. Descobri que sim, que todos são estranhos como eu. Descobri ainda que as chamadas pessoas comuns não são comuns coisa nenhuma. Todos têm uma vida interior muito rica. O que sinto você sente e o outro também. Estamos todos conectados de algum modo.
Mas esta experiência confirmou também meu sentimento de instabilidade e imprevisibilidade da realidade. Foi algo um pouco assustador. Mostrou que andamos mesmo sobre um chão nada sólido, que a terra pode abrir a qualquer momento e nos engolir.

Folha - Não foi difícil para alguém que escreve centrado quase que exclusivamente nas experiências pessoais ficar submerso nas vivências de tantas pessoas?
Auster - Não, me diverti bastante. Eu me sentia como se estivesse ouvindo milhares de conversas.

Folha - Você recolheu histórias de quase todos os lugares dos EUA e de pessoas de todas as profissões e idades. Você acha que conseguiu um retrato fiel da América?
Auster - Acho que consegui de alguma maneira ir contra uma espécie de transe que envolve a cultura americana hoje. Atualmente tudo gira em torno de fama, celebridades, fofocas, uma cultura do lixo que temos produzido aos baldes. Achei que seria interessante ouvir as pessoas comuns, fazer um tipo de protesto singelo contra esta besta na qual se transformou a cultura americana.

Folha - Você imagina que algum desses contadores de histórias que reuniu no livro tem qualidades para se tornar um autor profissional?
Auster - Uma parte deste grupo acho que já vinha escrevendo há anos. Não necessariamente publicando, mas escrevendo secretamente. Os melhores textos acho que vieram deles. Alguns poucos são jovens e muito inspirados. A moça que escreveu o último texto do livro, o último que li no rádio, escreve lindamente. E ela tem 24 anos. Há muito potencial aí. Outros, sobretudo os mais velhos, contaram sua única história.

Folha - Uma das suas únicas exigências para os colaboradores do projeto era que escrevessem histórias reais. Você acredita que as selecionadas eram verdadeiras?
Auster - Tenho certeza absoluta. Estou 99% seguro disso. As boas histórias que pareciam mais forçadas passaram por uma checagem pessoal. Escrevi para os autores perguntando se tudo aquilo acontecera de verdade. Em alguns casos os autores confessaram que inventaram tudo ou alguma parte delas. Uma mulher, por exemplo, havia escrito como se fosse sua filha pequena. Quando soube, tive de descartar o texto.

Folha - Da última vez que nos falamos, em Parati, você disse que estava escrevendo uma comédia que terminava na manhã do 11 de Setembro. Como está o livro?
Auster - Terminado. Acabei agora no outono. Vai sair aqui só no final do ano e se chamará "The Brooklyn Follies" (as asneiras de Brooklyn). Mais eu não conto.

Folha - E, depois do livro, o que você andou fazendo?
Auster - Eu me dediquei a um roteiro de cinema, que acabei agora mesmo. Quero dirigir outro filme. Estou me ocupando do elenco. Não sei se vou conseguir filmar, mas tenho de tentar. O tema e o título são segredo. Depois eu conto também.

ACHEI QUE MEU PAI FOSSE DEUS. Organizador: Paul Auster. Tradução: Pedro Maia Soares. Editora: Companhia das Letras. Quanto: R$ 49 (400 págs.).

Folha de São Paulo Ilustrada 19/02/2005
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1902200506.htm
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1902200507.htm

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