Monday, 21 June 2004

Inferno de Dante


Depois de muito divagar, resolvi fazer um cartão de visitas que ficou pronto sexta-feira passada. Da última vez que estive por aqui eu mandei fazer e quase não usei, desta vez que não tive tempo de pensar nisso, sempre que encontro um mestrando, doutorando, etc, recebo um cartão! Como não podia deixar de ser foi quase uma novela, na primeira loja que eu fui o cara que me atendeu foi muito ignorante e usou uma desculpa furada pra não aceitar o trabalho, ele disse que a fonte que estava usando poderia nao existir na gráfica, detalhe a fonte raríssima era a Arial. Fiquei muito P. da vida!!!
Em compensação, numa loja de revelação de fotos, o balconista que me atendeu foi bem simpático, chegou até a telefonar depois pra confirmar alguns dados, isso me fez rever a minha visão sobre os japoneses. (hahaha!) Como nada é perfeito, a impressão não ficou boa, fazer o que...

Sábado fui num café, projetado pelo prof Goichi, pai do Rei, onde os móveis foram feitos com feno e recobertos com barro. Foi o pessoal que participou do workshop que me convidou, pois no sábado haveria um evento em que as luzes seriam apagadas e por durante duas horas a iluminação seria feita só por velas (obviamente foram só alguns lugares que aderiram ao evento). A luz de velas houve a apresentação da banda UooMoo, estilo world music, que usa instrumentos de vários países para compor suas músicas, lembrou-me um pouco o Hermeto Pascal.
No café, eu não li o cardápio inteiro, mas o suco de maçã era orgânico e custou 500 ienes, quase 5 dólares! É difícil encontrar vegetarianos japoneses, muitos europeus que eu conheço são vegetarianos, mas existe várias lojas de produtos orgânicos por aqui. Também tem muito toufu, eu sei que alguns burajiru-jin não gostam, mas como é barato, custa bem menos que o suco de maçã orgânico e no Brasil um pedaço de 1 kilo (?) custa por volta de 7 reais, o teishoku vem sempre com toufu no misoshiru e yakko (pedaço de toufu).

A Aya e eu voltamos ao Parque de Yoyogi e não é que tem mesmo um brasileiro morando no parque! O cara é meio porra-louca (para morar num parque só podia!) e parece que ele é cameraman, fotógrafo, documentarista, e afins, mas não deu pra levar uma conversa muito civilizada, porque o cara é do tipo de brasileiro que fala gritando e não ouve muito o que você tem a dizer. Desta vez nos ofereceram um chá africano, como era fervido, experimentei. Um dia desses vão nos servir chá de cogumelo!!! (hehehe)
Vou participar de um levantamento sobre uma nova política que o governo metropolitano quer implantar para acabar com a população de rua. Pelo que eu entendi o morador de rua vai para um centro de assistência, onde recebe suporte por 2 meses, período no qual tem que conseguir um emprego, caso contrário tem que sair do centro. A explicação ficou meio tosca, mas não é preciso ser especialista para perceber que não vai dar muito certo. O objetivo do levantamento é tentar comprovar essa hipótese.
Preenchi um questionário de pesquisa da Big Issue Japan e fui sorteado, recebi uma camiseta de algodão orgânico e uma sacola de compras, produtos 'fair trade' (comércio justo). Eu acho que pouca gente respondeu a enquête, portanto o número de concorrentes deve ter sido irrisório, mas como fui um dos ganhadores só tenho a agradecer e o algodão da camiseta é bem gostoso de se vestir.

Começou o verão e com ele o meu tormento. Eu amaldiçôo todos os arquitetos modernistas e o telhado jardim! Estou morando no último andar e a laje não é protegida por um telhado, a circulação de ar não ajuda, então meu quarto vira um forno! Vocês lembram da FAU? Pois é, é bem parecido. Como não posso deixar o ar-condicionado ligado direto, pois faz mal para saúde do corpo e do bolso, estou a maior parte do tempo na facu que tem ar-condicionado! O pior é sair para rua, depois de um banho tomado, e ficar ensopado de suor! Mas vou parar de reclamar, pois faz mal para minha gastrite de estimação!
Terminei de ler o livro 'kikansha sensei' [機関車先生] e agora estou procurando um livro de bolso do Kenzaburo Oe, prêmio Nobel de Literatura. que li para a aula de redação. Só li o primeiro capítulo e gostei bastante, deve ser um pouco diferente dos outros livros dele, pois foi escrito especialmente para os jovens japoneses

Sunday, 6 June 2004

Comme Le Monde Est Petit!


Minha gastrite deu sinal de vida e desde da semana retrasada estou mal do estômago. Na quinta-feira fiz uma endoscopia e segundo a médica assistente é só gastrite mesmo, apesar de haver cicatrizes de úlceras. De qualquer forma, só vou saber o diagnóstico final na quarta, quando tenho nova consulta. O que posso dizer é que tive sorte em ter conseguido marcar uma consulta num hospital público metropolitano, pois alguém cancelou uma consulta, e segundo a enfermeira que me atendeu só haveria vagas em julho. Como vocês podem perceber hospital público é sempre lotado em qualquer parte do mundo, é óbvio que o atendimento no Brasil é bem pior. E como ajuda falar a língua nativa, porque nas minhas primeiras endoscopias eu não entendia nada de japonês e minhas lembranças não são muito boas. Desta vez a médica me instruiu a não movimentar a garganta que a sensação de enjôo cessa, realmente é verdade, mas de resto a sensação de algo se movimentando dentro do estômago é bastante ruim, será que era assim que os personagens do Alien se sentiam?
Segunda-feira passada fui com a Aya ao Parque de Yoyogi tentar uma aproximação com os moradores de rua. Os moradores não nos levaram muito a sério, em compensação descobrimos o café Enoa-ru (エノアール), que significa café com pinturas, desenhos, no meio das tendas de plástico azul. Os donos do café são dois jovens que servem chá e recebem o pagamento em espécie (escambo), e toda terça-feira, à tarde, realizam um evento no qual as pessoas são convidadas a desenhar utilizando o material fornecido por eles. Não descobrimos qual o motivo que os fez optar em morar no parque, mas ficamos de voltar para uma entrevista mais formal, pois eles podem ser uma conexão com os outros moradores. Ah, segundo eles havia muitos brasileiros morando no parque, alguns deles foram presos por furto!

O Japão é muito pequeno mesmo! Outro dia encontrei Anchan, uma amiga da Tailândia, que estudou comigo no curso de japonês da Waseda, mas que desde então tinha perdido contato. Foi muito engraçado, porque eu estava na estação de Takadanobaba andando pela plataforma , quando dou de cara com a Anchan, alguém que eu não esperava encontrar no Japão e muito menos na plataforma de trem! Conversamos, trocamos telefones e ficamos de marcar algo. Ela está trabalhando na ExxonMobil e veio para o Japão cuidar da transferência da filial japonesa para a Tailândia. A globalização e a redução de custos.
Os chuveiros do dormitório masculino estão sendo reformados, mas não estou imundo e mal-cheiroso, ainda, pois disponibilizaram outras salas de chuveiro. Tudo isso é um belo transtorno que está sendo recompensado com banho de graça por um mês. Como bom arquiteto estou observando como a mão de obra daqui trabalha e dentre outras constatações a mais interessante é que eles usam um 'mixer' de uns 80 centímetros de altura para misturar o cimento, ou seja, fazer argamassa é como fazer massa de bolo.
Outra descoberta inusitada deste dormitório caça-níqueis é que para usar o microondas e o 'toaster oven' da cozinha é necessário colocar uma moeda de 10 ienes. Fico me perguntado para que serve a taxa de condomínio e serviços cobrada junto com o aluguel!

Saí para jantar de bicicleta e na volta resolvi dar um rolê pela vizinhança, e não é que eu fui parado por dois policiais para averiguar se a bicicleta era roubada. No Japão faz-se o registro da bicicleta na delegacia e cola-se um adesivo numerado, e pelo número descobre-se quem é o dono. Eu aluguei a bicicleta do dormitório na esperança que isso evitaria maiores dores-de-cabeça, pois ela já estaria registrada, ledo engano! Expliquei que tinha alugado a bicicleta do dormitório e que ela não era minha, pediram, então, para mostrar o 'Alien ID Card', perguntaram onde eu estudava e blá, blá, blá. O problema foi que ao entrarem em contato com a delegacia para verificar a procedência da bicicleta, descobriram que o dono não era uma pessoa jurídica, mas física! E vai explicar, porque eu pensei que eles tinham registrado no nome da fundação, que é o mais lógico, visto que existe o serviço de aluguel para qualquer residente. Acho que o que me salvou foi que eles não sabiam o que fazer e não acharam que eu estava mentindo; e provavelmente, porque eu sou 'nikkei' (ascendência nipônica) e aluno da Waseda. Caso eu fosse chinês estaria até agora na delegacia tentando me explicar.