[Estranhamento: sei não, já não falo com muitos de meus amigos, telefonar às vezes soa estranho, ficar sabendo deles via blog deve criar uma sociabilidade estranha.]
Lendo o comentário acima várias coisas passaram pela minha mente, uma delas é que nossa geração, como já disse a Lu, é intermediária nesse mundo virtual. Não nascemos convivendo com a internet, ICQ, messenger, celular, weblog, etc, por isso mesmo, pra nós tanto faz, ainda conseguimos sobreviver sem eles.
Outra foi o comentário do prof Ryuta Imafuku sobre a proliferação de celulares no Japão, que para ele é prejudicial na medida que é majoritariamente dominada por uma só companhia ,a NTT, e diminui a sociabilidade. O exemplo que ele expôs foi de 4 jovens num café conversando animadamente até que um deles resolve verificar suas mensagens, após algum tempo os quatro estão lendo e respondendo as mensagens recebidas pelo celular. Terminada essa ação eles voltam a conversar. E por fim uma palestra do Nicolau Sevcenko proferida no seminário Cidade e Cultura: esfera pública e transformação urbana, realizada em junho de 2000 no Instituto Goethe. Em meados da década de 1980, houve uma campanha publicitária famosa, de uma companhia de informática americana, que mostrava uma garotinha sentada na cama com os braços cruzados, com cara de quem ia chorar de tédio, e uma chamada: "Abra a janela do mundo para ela". Na sequência, mostrava-se os pais presenteando a criança com um software: através de um CD-ROM ela teria acesso aos mais fantásticos museus e monumentos do mundo, e, portanto, a vida dela se transformaria completamente; criança ainda, ela iria adquirir cultura e experiência do mundo, oportunidade com que os pais e as gerações anteriores jamais puderam sequer sonhar.
Como todas as mensagens publicitárias, porque essa é a lógica delas, ocorreria exatamente o oposto. Ao invés de "abrir a janela do mundo para ela", aquele CD-ROM iria fechar a janela do mundo, porque se ela quisesse ver imagens das pirâmides do Egito, bastaria caminhar pelas ruas do bairro até a biblioteca mais próxima. No caminho, ela poderia conhecer aspectos da cidade, encontrar pessoas, ver o guarda, o jornaleiro, o florista, os varredores de rua, outras crianças, jardins, cachorros, borboletas, passarinhos; se fosse a uma biblioteca pública, é possível que encontrasse outras crianças, muitos provavelmente filhos de imigrantes, quem sabe até um filho de imigrante egípcio. E ela conheceria um egípcio de uma maneira muito mais viva, rica e criativa. Quem sabe até poderia vir a se casar com o egípcio. Mas o que o software lhe proporcionaria era exatamente o oposto. Então, por que estimular a criança a adquirir conhecimento do mundo exterior pelo computador? Porque isso a prende em casa e impede que ela saia na rua, pois a rua é perigosa, é imprevisível, cheia de estranhos, gente de outras culturas, e tudo isso é imensamente perigoso, ameaçador e transformador. Se você quer garantir que aquela criatura vá ser exatamente o que você quer que ela seja, é preciso que você a tranque, que a retenha e que incuta nela um conjunto único de valores. Portanto, que se feche todas as janelas para ela. Essa é em grande parte a mensagem do professor Negt [proferiu a primeira palestra], o desinvestimento em relação à vida, à sociedade, à cidade, provocado por esse novo contexto de transformação ultra-aceleradas e de impacto negativo para os laços de coesão social e afetiva.
[Sevcenko, Nicolau. "Os desafios das tecnologias à cultura democrática". In: Cidade e cultura: esfera pública e transformação urbana/ (org) Vera M. Pallamin; (coord.) Mariana Ludemann. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. p. 43-44 ]
Eu acho que a tecnologia sempre traz implicações boas e ruins. O fato é que essas coisas estão aí e são irreversíveis. O ponto é usar isso de forma a ser uma somatória e não uma limitação, uma redução, das possibilidades. Saber que existe uma vida lá fora tão rica e cheia de experiências como a virtual.
O celular é uma praga no Japão e os estudantes não perdem a chance de usá-lo mesmo em aula, enviando e recebendo mensagens, principalmente quando o professor está projetando slides na aula de história da arquitetura, não posso negar que eu fazia a mesma coisa. :P Mas há também outras formas de uso, como enviar trechos de um livro pelo celular. Uma amiga fez isso, quase que diariamente, como se tratava de um livro infantil e não a Divina Comédia isso perdurou por duas semanas ou mais.
ouvindo: [gusgus:polydistortion]
